Breve espaço entre cor e sombra


O bom de uma última carta é que a gente pode dizer qualquer coisa, e sem pressa. Como é a última, ela não precisa nem terminar.

Eu não chorei por você, Tato Simmone; nada disso. Eu chorei (agora percebo) por uma idéia que fracassava. Uma idéia que, num minuto, parecia ter futuro. A idéia da paixão é poderosa não pelo que ela tem de egoísta, de auto-satisfação, pelo isolamento terrível que contém; a idéia da paixão é grande porque melhora o mundo inteiro. É uma idéia que põe uma finalidade nas coisas e uma ética no mundo. A paixão nos esparrama. A paixão nos distribui, como o pão de Cristo, apenas trigo, sem Deus - e sem sofrimento, porque estamos fartos dele, há que se tirar essa gosma dos séculos das nossas costas. E chega de retórica.

Você sabia que há alguma coisa de clown em você? Há em você alguma coisa de cinema mudo, que me encantou já da escadaria do Metropolitan, onde esta balzaquiana alternativa que escreve a você agora estava sentada muito à vontade, ao sol daquela perspectiva de primavera, observando as cores, a luz e as pessoas, sentindo o reflexo de alguns blocos de gelo ainda resistindo à sombra mas já derrotados pelo calor crescente - uma atmosfera de mudança, para melhor, nos envolvia naquela manhã; uma predisposição para viver mais intensamente, como às vezes sentimos, sem explicação, quando acordamos.
Eu estava (acostume-se: vou falar muito de mim mesma nessa carta; eu preciso falar tudo, e como eu não acredito em psicanálise e não tenho exatamente intimidade com mais ninguém, escolhi você para me ouvir, uma primeira e última vez). Eu estava satisfeita comigo mesma; em uma semana tinha resolvido tudo o que eu tinha de resolver em Nova York (depois falo sobre o que eu tinha de resolver, principalmente sobre aquela maldita cabeça de pedra de Modigliani) e de forma bastante satisfatória; tinha ganho um bom dinheiro, até mesmo imprevisto, o que sempre nos deixa no limiar do êxtase da vida terrena; e tinha o dia inteiro para circular no Metropolitan, o que de certo modo, para mim, também é uma espécie saborosa de felicidade, daquela que não exige mais ninguém. Ao final da tarde, poderia dar uma bela caminhada até o hotel, sem pressa, empacotar minhas coisas, telefonar ao Domenico (você também vai saber dele, desse grande filho da puta), ir ao aeroporto e aí as horas avançam com maior velocidade, e súbito estaria na via Chiavari, na minha vecchia Roma, velha, bela, previsível e às vezes desconfortável Roma. Nada, nem Roma, é para sempre. Para você ver como estou deprimida.

Então parou aquele táxi a dez metros do meu degrau, a porta se abriu mas não saiu ninguém; você continuava conversando com aquela mulher loura, ou o contrário, ela continuava conversando com você, sem parar, alguma coisa que, é claro, eu não conseguiria ouvir. Quando você afinal saiu, ela veio em seguida, pela mesma porta, a da calçada, fazendo um sinal para o táxi esperar; ela queria se despedir mais completamente de você, e então eu vi que vocês eram estrangeiros e falavam uma língua algo familiar, mas irreconhecível; uma língua latina que não era espanhol. Você concordava com tudo que a mulher, mais velha que você, dizia, e você concordava de uma forma submissa; você abaixava a cabeça e fazia "sim". E enquanto ela (a essa altura eu percebi que vocês eram parecidos; os perfis eram semelhantes, a curva da testa e o nariz reto, um pouco maior do que seria o padrão convencional, mas não muito; dois belos perfis, de verdade) falava, sempre em voz normal, nada do escândalo do turista, ela ajeitava o teu casacão, tirava um fiapo do ombro, conferia a sua boina preta (até então eu ainda não tinha visto você de frente) e afofava o cachecol em torno do pescoço, o que me levou à conclusão final e agora iniludível de que se tratava de sua mãe, aqueles eram gestos de mãe, não de irmã ou de prima ou de tia ou mesmo de amante; uma mãe cuidadosa e refinada, atenta a você, e, lá no fundo, com uma nesga de ansiedade que ultrapassava você; uma ansiedade que ia além do filho e para a qual ela não tinha nenhuma solução à vista, mas que incomodava; uma ansiedade que também passava a você.

Acertei? Sim, porque até agora não sei quem era aquela mulher. Durante o dia não tocamos no assunto (nem lembramos) e nas nossas cartas muito menos. Era, de fato, a sua mãe? Bem, não importa. Aliás, não importa nada. Eu quero morrer.
Afinal você se livrou da mulher, não sem antes ceder, a contragosto, um abraço e dois beijinhos, e ainda foi vítima desse olhar derradeiro de mãe, o controle final, antes que ela entrasse de volta ao táxi e esquecesse completamente de você até o próximo encontro, porque aquela mulher, sua mãe virtual, aproveita cada segundo de que ela dispõe, e só esses, porque o tempo é uma urgência. Você esperou o táxi se afastar, talvez até para responder a um eventual último aceno, mas a mulher já estava concentrada no assunto da esquina adiante, onde o sinal fechou. Eu até penso ter ouvido um suspiro seu, mas é impossível, àquela distância; talvez o suspiro fosse meu, feliz por vê-lo afinal livre daquele suplício bem-intencionado. (Você sabe o que é guardar todo este filme comigo, minuto a minuto, ao longo de um ano, e só escrever aquelas cartas frias, distantes e bem-comportadas sobre a superioridade - e a vitória - da arte figurativa sobe a arte conceitual, e que portanto você não precisava se sentir complexado por só trabalhar narrativas? Eu não agüento mais.) Ou talvez fosse o seu gesto, aquela tua postura na calçada, um erguer de ombros que súbito relaxa, que me tenha sugerido o suspiro.
Então você se voltou para subir as escadarias daquela manhã com o mesmo sentimento de libertação que eu, por acaso, estava vivendo, o sentimento vivo das estações do ano que, segundo você, só quem vive sob a neve pode algum dia compreender, e havia aquelas três belas bandeiras coloridas descendo simétricas do céu azul entre as colunas do prédio anunciando os impressionistas como quem convoca o povo para assistir a uma liça da Idade Média, faltando apenas as cornetas no balcão ao alto - um dia luminoso, a liberdade em uma apreensão ingênua e limpa, a pura idéia de liberdade, era o que eu lia no teu rosto, olhando o prédio como quem se prepara para entrar nela e você avançou alguns passos (alguns segundos depois de eu ver as horas), você avançou nefelibata, desacostumado, quase cego, e numa seqüência de quatro tropeços ridículos conseguiu ainda recuperar um pedaço de equilíbrio graças à minha mão, que se ergueu em tua defesa, ou em defesa própria, porque de outro modo você desabaria definitivo sobre mim - e ao fim nos vimos, eu da Itália, você do Brasil, entre um degrau e outro, abraçados incertamente como num lance de tango, em que o homem era eu, e você a mulher. Por pouco não te beijei ali mesmo, o que muito provavelmente (acho que com certeza) daria uma bela e abrupta rotação nas nossas vidas, também como num tango argentino (o tango é argentino, não?).

Segurando você ao fim de um meio rodopiar, com o cachecol fora de lugar, vi sua gravata-borboleta pela primeira vez, o que me deu vontade de rir (eu cheguei a sorrir, se você lembra), não da gravata (embora engraçada), mas porque tudo era improvável naquela manhã. Só nós dois, certíssimos e seríssimos como duas figuras congeladas de um tango pintado por David.

voltar