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Ensaio da Paixão, pp. 23-24
Toco tinha dois metros de altura e um anjo da guarda. Toda manhã
a mesma angústia: abrir os olhos, piscar, sentir a vã
esperança de liberdade, e afinal vê-lo, de novo,
o maldito anjo - pendurado nas tarrafas e redes do quarto, escondido
atrás dos caniços, varas e fios de pesca, olhando
para ele, guardando-o a uma distância segura, sempre um
pouco assustado, talvez até mesmo com vergonha de viver
naquela indiscrição eterna. Não dormia, não
sumia; somente guardava-o. Fosse Toco onde fosse, acompanhava-o
o anjo miúdo, a dois, três metros de distância,
com seu silencioso bater de asas - e sempre com medo, temendo
a mão de Toco, as pedras que quase o acertavam, temendo
a fúria, o ódio de Toco. Nesses ataques esporádicos,
voava célere, desaparecendo por alguns instantes. Mas bastava
Toco suspirar, fechar e abrir os olhos - e lá estava de
novo o anjinho, na fresta da porta, no telhado, no galho de árvore,
atrás das pedras, o olhar em Toco, alerta mas respeitoso.
Por fim, acostumou-se com o anjo. Excepcionalmente, chegava a
falar com ele, embora jamais ouvisse uma resposta: o anjinho era
mudo. E Toco, ao se perceber falando, sentia um medo adicional:
o de que percebessem seus monólogos, e bastava pensar nisso,
na invasão do que tinha de mais íntimo, para odiar
o anjo com mais força:
- Um dia te acerto, desgraçado.
Outras vezes, nas noites melancólicas, de lua, filosofava:
- Por que você não é um passarinho? Te botava
na gaiola, ficava teu amigo.
E quando bebia vinho com Edgar e depois vagava solitário
pelos caminhos da ilha, preparava armadilhas, oferecia doces:
- Vem aqui, meu anjo! Vem aqui perto, come um doce! - e a mão
esquerda trêmula, pronta a agarrar e esgoelar a figurinha
de asas.
Mas o anjo nunca se aproximava.
Naquela manhã de janeiro, acordou tarde e ficou na cama
pensando na vida. Uma sonolência gostosa, o calor, a perspectiva
da pesca, e, principalmente, da Paixão que se aproximava,
com a multidão de amigos, das mulheres que ele amava e
que logo iriam povoar a ilha, como todos os anos. Sensação
de preguiça e felicidade, a beleza serena do ritual de
Cristo, as conversas e bebidas noite adentro, as mil paixões
avulsas, a solidão compartilhada...
Finalmente acordou de vez, levantou-se, vestiu um calção,
desviou-se das redes e tarrafas penduradas, passou indiferente
pelo anjo, foi ao banheirinho da segunda escada e mijou com estrépido.
Depois, lavou o rosto e ficou se olhando no espelho: duas espinhas
na face ainda sem barba. Lembrou a voz de Dilma: Você tem
um rosto bonito. O que eu queria mesmo era viver com você
- e Toco sorriu. Estufou o peito nu e viu-se cônsul romano,
digno e corrupto no palácio das prostitutas. Então
- um gesto largo, lento, nobre - tu és o Cristo? De noite,
à beira do mar, lembrou (um ano distante) o choro de Dilma:
Você não gosta de mim - e o beijo na boca. Lembrou
também o peixe enorme que pescou num fim de tarde, nas
Grutas: oito quilos. No canto do espelho, o rosto do anjo a fitá-lo,
com espanto e medo.
Sacudiu a cabeça - esquecer - e subiu à cozinha.
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