O fantasma da infância
, pp. 9-11


André Devinne é um homem de substância ingênua, e a ingenuidade também se cultiva: uma defesa contra tudo que não se faz entender. Daí o valor do silêncio, que é uma das faces do espanto e um dos sinais de respeito pelas forças do mundo. Ele sente: há alguma coisa irresolvida que está em parte alguma mas viaja pelos nervos. Quem sabe uma espécie de vergonha. Quem sabe o medo enigmático dos quarenta anos, essa cabala abstrata. Certamente não é a angústia de se ver lavando o carro numa tarde de sábado, um homem de sua posição. É até com delicadeza que ele se entrega ao sol das três da tarde, agachado ao lado da roda, sem camisa, esfregando o pano sujo no pneu, a última etapa deste ritual disfarçado em que ele mal se atreve a formular seu tranqüilo desespero. Assim: ele está numa guerra, mas por acaso; de onde ele está, submerso na ingenuidade, à qual se agarra sem saber, André Devinne não consegue ver o inimigo. Talvez não haja nenhum. O campo de batalha é um enorme silêncio.

- Filha, não fique aí no sol sem camisa.
A menina recuou até a sombra. Agachou-se, olhos negros no pai.
- Você vai pra praia hoje?
André Devinne contemplou o pneu lavado: um bom trabalho.
- Não sei. Falou com a mãe?
- Ela está pintando.
A filha tem o mesmo olhar da mãe, quando Laura, da janela do ateliê, transforma o mar da Barra, aquela estreita faixa de azul acima da Lagoa, numa outra faixa, de outra cor, mas igualmente suave, na tela em branco. Um olhar (raro) que investiga sem ferir que parece, de fato, ver o que está lá.

O pai espreguiçou-se, esticando as pernas. Com o dedo tirou uma sujeirinha do vidro. Largou o pano imundo no balde e olhou o céu, o horizonte, as duas faixas de mar, o azul da Lagoa, vivendo momentaneamente o prazer de proprietário. Lembrou-se da lição de inglês It's a nice day, isn't it? e tentou esquecê-la de imediato, mas era tarde: o corpo inteiro se povoou de lembrança e de ansiedade, exigindo explicações. Estava indo muito bem, a professora Vera era uma mulher agradável, competente e determinada, e, talvez justo por isso, ele cometeu uma estupidez. Sem pensar, voltou a cabeça e acenou para Laura, que do janelão do ateliê lhe devolveu o gesto, como quem desenha no ar, pincel à mão. Ele suspirou, sentindo o prazer do suor, a expectativa purificante do banho frio, e desceu o olhar para a rua torta e estreita, um corte na terra, onde penava um mochileiro manco, ladeira acima. Concentrou-se um segundo naquela figura obsoleta, de cabelos nos ombros e roupa velha, de um estilo alternativo por falta de alternativas, e mais uma vez angustiou-se, agora vítima de um sopro esquisito de familiaridade. A filha insistiu:

- Você não vai pra praia?
Mudar todos os assuntos.
- Julinha, o que é, o que é? Vive casando e está sempre solteiro?
Ela riu.
- Ah, pai. Essa é fácil. O padre!
Ele riu também, sem olhar para a rua. Ele vem falar comigo. O carro brilhava.
- Acertou. Pegou o balde, ainda incerto. Vamos ver se a mãe quer sair?

Mas não teve tempo. Como se a mais vaga e gratuita intuição se fizesse realidade inadiável, ouviu atrás de si os passos das sandálias rotas raspando nas pedrinhas e viveu a sensação ruim de dizer não, não tenho dinheiro, não sei onde fica, não posso fazer nada, não tenho cigarro, não conheço, é impossível, não estou interessado, não toque em mim, por favor, saia daqui.


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