Juliano Pavollini

16 anos


Clara pede que eu comece pela infância. Bem, eu tinha tudo para dar certo, exceto a família. Meu pai, magro assim, era um homem monumental que lia diariamente a Bíblia, dava aulas na escola da aldeia e cuidava para que fôssemos ajuizados. Já cheguei a pensar que fui eu quem o matou, mas hoje, pelo menos quanto a isso, estou tranqüilo. A vida para ele era mesmo uma tarefa incômoda, alguma penitência da qual ele deveria se livrar tão logo as lições estivessem pagas. Que estorvo, estar vivo – era o que ele dizia sem dizer, todos os dias, com um mau humor minucioso. Certas pessoas são incompletas de um modo estranho.

Comecei a conhecer meu pai pelas mãos. Teria eu uns três anos, e, sentado à sua frente na longa mesa onde ele se aprumava ao centro, como Cristo (e não à cabeceira, como o pai do meu vizinho), via em primeiro plano aquele amontoado de ossos e calos entrelaçados na oração do almoço. Muito acima, como que detrás de uma nuvem, meus olhos de criança desenhavam o rosto do meu pai, de faiscantes olhos azuis em meio a um topete de fogo. Era realmente um homem bonito, mas eu não sabia. Ele rezava e agradecia a Deus a comida que nos alimentava, e a nossa saúde, e o nosso presente e o nosso futuro, e na oferenda não havia covardia alguma. Meu pai, quando rezava, sabia do que estava falando. Era íntimo de Deus, do Céu e do Trabalho. Tinha crenças a um tempo sólidas e celestes. Criava galinhas, coelhos, fazia horta e dava aulas, providenciando para que tivéssemos de tudo um pouco: pão, sono, trabalho, costumes, respeito, lazer e surras, exatamente como quem produz um teorema de geometria.

Não deu muito certo, é verdade, mas pelo menos ele fez a sua parte. Quando comecei a conhecê-lo – quando comecei a conhecer as suas mãos –, ele já tinha uma história comprida, como filho de imigrantes analfabetos entre tantos irmãos e irmãs de que até ele já perdera a conta , criado nebulosamente num seminário, de onde fugiu também sem explicação para trabalhar numa pedreira e dali a um curso por correspondência e um diploma precário, e depois, alguns anos depois, a um título também incompleto de professor numa escolinha caindo aos pedaços, na cidade em que nasci: meia dúzia de ruas embarradas, uma igreja, um cartório, uma cadeia. Pois ali estava meu pai, sólido e estabelecido no meio do mato, com o terreno dele e a casa dele e a horta dele, e mais os bichos que criava e matava para nosso sustento.

Este era meu pai. Um homem de gestos previsíveis, de pouca fala e de uma emoção sufocada – mas não ausente. Lembro-me das suas mãos – enormes, deformadas, de unhas pretas – embrulhando nossos toscos presentes de Natal em velhas folhas de papel colorido que minha mãe guardava durante o ano debaixo do colchão, e tentando ajeitar os pacotes sob um ridículo pinheirinho enterrado num balde, com econômicos chumaços de algodão aqui e ali imitando neve, enquanto morríamos de calor. Depois, cantávamos hinos em volta da mesa preparada por minha mãe, comíamos até nos empanturrar e dávamos risadas contidas dentro de nossas fatiotas de Natal, que serviam também para os aniversários. Tudo aquilo era uma obrigação que meu pai e nós cumpríamos à falta de coisa melhor. Porque meu pai era um homem substancialmente triste. O Paraíso estava em outra parte, possivelmente no Céu, depois que ele morresse; enquanto isso, ele ia cumprindo a seu modo aquelas providências sem importância, mas que tinham de ser tomadas. Uma dessas providências era nos fazer carinho, de tempos em tempos – e essa é outra lembrança forte, a daquelas mãos quase do tamanho da minha cabeça, metendo os dedos nos meus cabelos numa intenção suave. Ou então nos levando, a mim e as minhas duas irmãs, numa venda da esquina, onde comprava balas de hortelã e as distribuía com um rigor salomônico.

Outra lembrança precoce das mãos do meu pai corresponde às sovas que levei. Foram poucas, mas graníticas. Nunca sovas, digamos, descabeladas; eram antes metódicas, de correta medida e funda intensidade. Batia-me nas coxas, e não no traseiro, de modo que eu passava horas com aquelas manchas vermelhas logo abaixo da bainha das calças curtas, a cada vez que eu quebrava um vidro, furava a cerca das galinhas ou me recusava a tomar banho. Certa vez me pegou em flagrante no galpão dos fundos, onde eu e uma vizinha tirávamos a roupa. Nesta surra, percebi um brilho no velho, uma satisfação especial por me punir, como se agora, agora sim suas obrigações terrestres tivessem verdadeiramente uma utilidade.

Aprendi cedo que devia chorar logo na primeira decepada. Se, por teimosia ou teste, mordesse a língua e não gritasse, os tapas cresciam, em velocidade e fúria até o insuportável – e mesmo depois que eu saía trôpego com as pernas queimadas, o olho do velho me perseguia, tenso, como a tentar descobrir a menor sombra de deboche ou desrespeito, quando então (experimentei uma única vez) o mundo vinha abaixo com uma sanha autenticamente assassina.

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