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Uma noite em Curitiba
Começo praticamente pelo fim, vendo o professor Rennon
no hall do Edifício Dom Pedro II, o templo das Ciências
Humanas da Universidade, aguardando o elevador como quem espera
um tílburi real, cumprimentando em volta seus eventuais
pupilos e colegas, às dez horas da manhã, um sorriso
no rosto, tanto pelos cumprimentos como (principalmente) pela
idéia que lhe vai na cabeça para apresentar à
reunião do Centro que começará em poucos
minutos.
Pensem: meu pai tem cinqüenta e um anos de idade. É
um homem bonito, bem tratado, maduro, um cidadão de uma
classe-média diligente e econômica (mas que, é
verdade, nunca sai do lugar), um tanto vaidoso mas consciente
da vaidade, o que faz muita diferença; um homem, digamos,
satisfeito; um homem que não tem nada contra o prazer,
porque nunca pensou nele; a idéia de prazer não
se localiza em nenhuma atividade específica. Em suma: viver,
para ele, até então não ocupava espaço.
Isso tem um preço, é claro, mas ao longo dos anos
nunca ninguém lhe apresentou a conta - daí aquele
olhar tranqüilo acompanhando a luzinha do elevador descendo
os andares. Aos cinqüenta anos, meu pai vê seu nome
impresso no cabeçalho de alguns importantes suplementos
culturais do país, com alguma freqüência. O
abnegado professor de tantos anos vai se transformando em referência
bibliográfica obrigatória, uma notinha aqui, uma
notícia ali, e eis que temos uma pequena celebridade acadêmica,
mais ou menos do tamanho da cidade, o que é razoável.
Ali, a poucos metros, saudável - ele nunca fumou - e feliz,
esperando o elevador.
Vejam agora os outros lados. O primeiro deles é a prosaica
dona Margarida, minha mãe, de 42 anos de idade. Há
23, desde que eu nasci, dona Margarida cuida do professor Rennon
- e nunca mais fez nada na existência além de contratar
diaristas, mandar consertar a máquina de lavar roupa, arrumar
a mala com as roupas do professor quando ele vai a algum simpósio
na USP, assistir televisão e a um ou outro cineminha, acompanhar
o marido nos encontros anuais da Associação dos
Professores (onde o professor é sempre lembrado e auto-descartado
com um sorriso, como um ótimo tertius nas sucessões
da Reitoria) e... e o que mais? preocupar-se silenciosamente com
os descaminhos do filho e se queixar eventualmente de uma dorzinha
que da coluna às vezes se espalha pelo peito, bem aqui.
O segundo lado sou eu. Já no segundo grau apresentei defeitos
psicológicos, que, analisando friamente, acabaram se transformando
numa certa predisposição, talvez inata, a fazer
tudo errado. Aquela história: teus filhos não são
teus filhos, etc. Vocês conhecem o refrão. Assim,
meu pai, completamente absorvido no seu interminável trabalho
acadêmico, abanou as mãos inúteis quando eu
tentei encurtar caminho vendendo pó para os ricos e maconha
para os pobres, pisei em falso e destruí o carro da minha
mãe. Ficou um pedacinho de platina no meu cérebro.
Um começo, digamos, triunfal. Mas não estou acusando
ninguém: acho que meu pai não teve nada a ver com
isso. Com outros azares, sim. Os dele.
Há um terceiro e obscuro lado da vida paterna: minha irmã.
(Pensando bem, um homem sem sorte, esse meu pai: talvez todos
pensem assim - o professor Rennon, essa alma boníssima,
decididamente não merecia a família que tem! O que,
vendo-se do avesso, é um álibi exato: quem não
seria perfeito com filhos incompletos assim?) Minha irmã,
a caçula, fugiu de casa aos 17 anos mal feitos com um revendedor
de carros usados, levando alguns dólares da gaveta do escritório
- o velho sempre foi tão distraído com essas coisas!
E um homem bom: nem chamou a polícia nem nada, contentando-se
com o bilhete da menina: vou casar, volto logo. De fato, voltou
casada, sem o marido, um ano e meio depois, com um nariz quebrado
e um bebê de colo. A casa ficou agitada por algum tempo,
o bebê chorava muito, minha irmã tinha crises de
alheamento, a mãe crises nervosas, e o pai ficava até
onze da noite na Universidade, no seu gabinete, desenvolvendo
um trabalho demorado sobre a escravatura brasileira. Mas pouco
depois a ovelha negríssima desapareceu para sempre com
o único neto e com um ser barbudo que tocava violão
- e até hoje ouço o eco daquele suspiro secreto
de alívio. Que fazer? Quanto a mim...
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