O fotógrafo revela um filme


Ele acendeu a lanterna vermelha, mas era como se não precisasse dela – apenas um hábito. A mão abaixou-se até a sacola e tirou de lá a máquina. Ele não queria pensar: no escuro, jogava no lixo outros 200 dólares. Talvez houvesse alguma coisa mais alta naquele impulso, menos pessoal, ele sonhou. Sim, pessoal, mas em nome da arte. Uma espécie de liberdade. Ver uma seqüência de fotos suas na Galeria Lance, para dizer: esse aí sou eu. Nem Lídia me conhece; ninguém. Eu mesmo não me conheço, ele pensou, mas isso pode ser uma vantagem. Por enquanto, vou escapando pelas frestas. Não precisava estar tão escuro como agora, mas talvez eu não queira mesmo mais luz – e ele sorriu com aquele pequeno duplo sentido, enquanto dissolvia o revelador, calculando em seguida a proporção da água. Proporção um por um. Assim que deve ser a vida: uma proporção, ele divagou. A certeza de que as coisas estão chegando ao fim. E no entanto, ele pensou, também eu quis ficar só durante muito tempo. As coisas vão se deteriorando. Eu não precisava ter aceitado esse serviço. Uma espécie discreta de escravidão moral que me arrastará até o fim dos dias. As pessoas nascidas em 1960 deveriam todas fazer análise, Lídia dizia, quando eles ainda conversavam, ele lembrou: essa relação ambígua com os anos da ditadura. Todos os filhos da puta daquele tempo – agora era ele mesmo que concluía – todos os que mamaram na teta nos anos em que ninguém escolhia nada agora estão aí, em defesa dos grandes princípios. E vão se confundindo com todos aqueles que estavam do outro lado, do lado escuro, das trevas, do porão (ou terá sido este o único lado claro?), de modo que no lusco-fusco do ano 2000, do século XXI, do afinal admirável mundo novo, não se reconhecem mais uns e outros. Temperatura 20 graus, ele conferiu, e apagou a lanterna vermelha. Escuridão total. A minha função é olhar, não é pensar, defendeu-se ele, e sorriu: a minha função. Ridículo. Temos funções, obedecemos a algum chamado, ou da natureza, a essência do bom selvagem, posso até ouvir os uivos dos céus determinando em trombetas a minha vida, a aula da mãe-terra; ou dos grandes desígnios políticos, quem somos nós para interferir neles? Que cada um cumpra com a sua função. Resista ao niilismo, dizia-lhe Lídia, já impaciente com a minha cabeça confusa, ele só leu uns cinco livros na vida mas presta muita atenção, uma vez ela disse em voz alta para alguém, a título de brincadeira, ele lembrava. Ele fechou os olhos – a mesma escuridão, enquanto o tato se encarregava de enrolar o filme na espiral. Uma espécie de missa, ele pensou, agarrando um fiapo de alegria. A Lídia tem razão: estou precisando de um pouco de auto-estima, um produto que se compra em farmácia, essa fantasia surrada da auto-ajuda. Talvez tudo não passe mesmo de química, como a que vai revelar nessas trevas a face, não do abismo, mas de Íris. Lembrou dela, frágil, no recorte da luz da cozinha. Depois, os olhos em direção aos olhos dele através da lente 100 milímetros, trazendo-a ainda mais para perto de seus olhos, como se aquela ilusão óptica lhe trouxesse também o respirar de Íris, aquele delicado bicho do mato transbordante de tensão e de suavidade, a discretíssima película sobre a água, protegendo-a de vazar, indecisa ainda entre a paz e a guerra, alguém que talvez deseja se domesticar mas não sabe ainda se isso será um bom negócio, e por isso toda a pele se eriça mesmo quando os olhos se entregam aos olhos da fotografia. Ele não quis pensar mais nessas fotos antes de vê-las: talvez toda a minha depressão, fantasiou ele, esteja na distância entre o sonho e a sua imagem. Quando revelei a última fotografia que, de fato, era a imagem sonhada?

(O fotógrafo, p. 64)

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