A suavidade do vento, pp. 13-17
Meu personagem - ou meu amigo, que por enquanto é só
o que tenho, e vocês estão aí, de olho crítico
-, o meu amigo está acabando a sua aula. Ele revê,
repete, insiste, aponta cada um dos tópicos do quadro-negro,
numerados de um a oito, quatro à esquerda, quatro à
direita, e há uma delicada aflição em seu
rosto. Ele deseja que não reste qualquer dúvida,
e cada nervo do seu corpo testemunha isso, a alma inteira voltada
para as suas próprias palavras.
Mas prestem atenção: há um fosso logo atrás
dele - e do outro lado do fosso estão suas quarenta alunas
vestidas de azul, cada uma delas, muito provavelmente, pensando
em outra coisa que não no que está escrito adiante,
nem no que elas estão ouvindo. Entretanto, há
silêncio. A aula está muito próxima do fim,
parece que elas prendem a respiração na agonia
do sinal: em algum lugar do prédio (melhor: do universo)
há um inspetor se dirigindo nesse exato momento ao botão
da campainha que decretará o fim de todo um ciclo de
voz e giz em todas as salas. Mas não sejam injustos:
não é por isso que as meninas estão em
silêncio.
Elas estão em silêncio também porque o professor
o merece. Nada de extraordinário, eu reconheço.
É um professor monótono que ensina coisas chatas
girando em volta da mesa como uma formiga tentando escapar de
um copo de vidro. Mas há visível carinho nos seus
gestos; é possível (é até bem provável)
que ele tenha consciência de que o tempo dele não
serve para não naquele espaço, é provável
que ele saiba - é claro que sabe! - que suas palavras
têm pouquíssima importância. E no entanto
ele se move, ele diz, ele repete, ele escreve no quadro-negro,
e aquele zigue-zague de gestos concentrados concentra o olhar
das quarenta alunas, como quem admira o trabalho de um artesão
- um relojoeiro, um sapateiro, um técnico de rádio
e TV - mesmo sem entender nada do que está vendo. Em
suma: ele faz a coisa bem feita, e isso sempre causa admiração.
Mas há um outro segredo, talvez o principal motivo do
respeito que recebe sendo um homem tão... sem brilho,
digamos: é que nós sentimos que ele é muito
superior ao que parece ser. Às vezes chegamos quase a
ver um discretíssimo sorriso no fundo daquele ritual
mecânico das aulas, uma risadinha que a qualquer momento
poderá desabrochar uma gargalhada de libertação
- e então estaremos diante do Verdadeiro Professor, exatamente
como desconfiávamos!
Bem, não vemos a risadinha: apenas desconfiamos dela.
E há outro detalhe a considerar: o professor é
um homem desmazelado. Pior: ele se acha feio e se retesa todo
em defesa. Daí aquele fosso: se ele desse um passo em
direção das meninas rosadinhas e atentas, certamente
despencaria no precipício. Se, por distração,
ele avança em excesso, a mão já volta para
trás, cega, tateando a mesa, puxando-o de volta ao quadro-negro.
Bem, as alunas também consideram o professor feiozinho,
relaxado mesmo - mas, construtivas, levantam hipóteses
e traçam planos secretos para que ele melhore um pouco:
talvez a cor das camisas, talvez o estilo das calças,
quem sabe um novo corte de cabelo... quanta coisa poderia ser
feita! Chegam a discutir a cor das meias! É um carinho
desinteressado, talvez até precocemente maternal. Há,
é claro - sempre há dessas pessoas -, as que escarnecem
cruelmente do professor. E há também as apaixonadas,
as platônicas que sentam na primeira fila e nunca sabem
as respostas certas.
Pois bateu o sinal. Nenhuma debandada: apenas uma sucessão
crescente de pequenos ruídos, avisando-o de que elas
já estão cheias por hoje: ele compreende e diz:
- Estão dispensadas.
Só então a correria. Sem olhar para ninguém,
o professor junta as folhas, cadernos e livros, apaga o quadro
com método, avança pelo corredor evitando cuidadosamente
esbarrar em alguém, e entra na sala dos professores para
o ritual do cafezinho. Observem: ele vai direto à garrafa
térmica. Trabalha no Colégio há uns oito
anos, mas temos a sensação exata de que chegou
ontem. É visível: ele não se sente em casa;
ele é silencioso; tenta ser discreto, mas gagueja; é
um homem esquisito. Não vou falar dos outros professores,
porque é grande a tentação da caricatura,
assim na pressa. Vocês já conhecem: o gordo bonachão
que lê a página de esportes, a loira que faz especialização
pedagógica, a coroa que conta qüinqüênios,
o japonês recém-formado em arquitetura, o diretor
que racionalizou o café e as bolachas da hora do lanche,
e daí por diante. O fato é que, amigos ou inimigos,
todos esses falam mais ou menos a mesma língua e freqüentam
as mesmas festas. O único estranho, o único esquisito
ali é o meu amigo. Vejam: depois de tantos anos, ele
ainda treme ao tomar o cafezinho, e continua a escolher a sombra,
o canto, o atrás, para esperar o próximo sinal.
O que dirão dele pelas costas? Aparentemente, ele nem
está interessado em saber, olhando a parede, xicrinha
à mão, talvez remoendo o pânico de que lhe
dirijam a palavra.
Encerradas as aulas da manhã, o professor junta seu material
e desce rápido as escadas, sempre evitando o esbarrão,
e enfrenta, com discreto alívio, o sol e o calor brutal
de março, na verdade mais um vapor que emana do chão:
choveu a noite inteira e a cidade é um mar de barro,
barro vermelho, grudento, invencível. Observem: o vermelho
do barro avança sobre todas as cores da cidade. Na frente
das casas vemos limpadores de pé que nos lembram ruas
de faroeste, com aqueles paus de amarrar cavalos. Já
foi pior; graças a uma campanha do Lyons e do Rotary,
que se uniram pela primeira vez, conseguiu-se um asfalto na
avenida principal, que, de fato, é a única. Mas
o professor está ainda a duas quadras da avenida, e no
lado pior, o solitário, que não conta com nenhum
caminho de tijolos. O lado bom da rua, como sempre, já
está tomando pelas alunas, e ele não se sentiria
bem se juntando a elas, no meio daquela gritaria idiota de gente
em bando. A cada passo do professor junta-se mais barro nas
solas e ele se equilibra incerto, como em pequenas pernas de
pau. E há uma falta generalizada de pedras. Os muito
ricos compram caminhões de pedras para suas fachadas,
mas também estas se emporcalham de barro.
Finalmente ele chega à avenida, raspando os pés
no asfalto, largando tocos de barro, e segue rápido à
banca de revistas, que desta vez não fechou para o almoço.
Não é exatamente uma banca, mas uma acanhada loja
de armarinho que por acaso vende números atrasados de
revistas e jornais - e lá estava, no banquinho de sempre,
a Maria Louca, acenando para ele, torta e tartamuda, sorridente
e burra, feliz por encontrar o freguês amigo e lhe entregar
o jornal de São Paulo, razoavelmente novo. Ela ria, ele
dava o dinheiro, ela ia tonta até o balcão, pegava
o troco com o pai, entregava-o ao professor, aceitava o carinho
desajeitado nos cabelos e voltava ao banquinho para cair de
novo no insondável silêncio.
A essa altura, meu amigo sentirá fome. Ele desce a avenida,
eventualmente cumprimentando aqui e ali, até o Snooker
Bar, com a enorme televisão pendurada no teto, imagens
fantasmagóricas, em volume sempre acima do normal, mais
o barulho das bolas de bilhar e exclamações respectivas,
e, no outro lado, as mesinhas de fórmica. Ele vai lá
para o fundo, na última, de costas para a parede e de
olho no jornal, devorando pedaços de velhas notícias,
até que o dono do bar lhe traga o prato de sempre: bife,
ovo frito, arroz, feijão, batata frita, duas folhas de
alface e três rodelas de tomate. O professor é
um homem magro - de fato, seco, de uma secura esticada, se vocês
entendem -, mas come bem. Bem e rápido: come olhando
o jornal, como quem considera o ato de comer uma perda de tempo.
Há pessoas assim. Daí porque ele gosta do Snooker
Bar: é despachado (ainda que às vezes o bife venha
frio), é familiar (o dono já o conhece; nenhuma
investigação prévia, nenhuma desconfiança
tática, nenhuma má vontade ou excesso de boa vontade;
nenhuma pergunta, principalmente), e é prático
(lá está o dono abrindo a gaveta do balcão
e anotando mais um almoço, que será pago ao final
do mês). Levaria muito tempo até ele conquistar
essa intimidade ideal em outro restaurante: assim ficava por
ali mesmo, que era, aliás, seu único espaço
social, por assim dizer.
Terminada a refeição, meu amigo fumará
o primeiro cigarro do dia. Ele jamais fumaria em sala de aula
(talvez por desconfiar de que, fatalmente, trocaria o cigarro
pelo giz), e talvez fumasse na sala dos professores (isso já
aconteceu de modo desastrado, três vezes), mas pela manhã
ele está normalmente indisposto. Melhor: profundamente
indisposto, e uma tragada assim é sempre azeda. Mas logo
depois do almoço era sempre um bom momento. Vejam: pouquíssimas
pessoas são capazes de tragar com tamanho prazer. Há
até um toque de fúria naquela aspirada que pretende
acabar com o cigarro de um único golpe; mas o sopro -
que alívio! que delícia! Observem como ele se
recosta, como fecha os olhos, como sonha! Fumar assim nem chega
a ser um vício!
Brevemente entontecido, ele sai para a rua depois de um aceno
discreto ao proprietário (cujo nome ainda não
conseguiu decorar ao longo dos anos, alguma coisa entre Durval
e Nerval), sente o sol forte, praticamente vendo o vapor subir
do barro, abaixa a cabeça e assim avança, rápido,
obtuso, em linhas retas e cegas, em direção à
sua casa.