PERNAMBUCO
Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado
Recife, janeiro de 2011

É o erro que vai lhe erguer

José Castello

Cristovão Tezza não abandona sua aposta firme no realismo, na objetividade e no coloquial. No premiado O filho eterno, levou esses princípios ao extremo, chegando a se descolar de si (pois nunca escondeu o estofo autobiográfico do livro) para, só enfim, conseguir narrar. Visto desde fora, o protagonista do romance, investido do papel de outro, ganhou uma perturbadora nitidez. A ponto de muitos leitores se perguntarem, ainda hoje, se o filho eterno de que o título fala é, mesmo, o filho especial, ou o próprio pai.

Os leitores de Tezza certamente se perguntavam qual seria seu próximo passo rumo à face do real. Seria possível avançar mais sem, na verdade, retroceder? A resposta surpreendente vem com Um erro emocional, seu novo romance. Muito mais do que um quase impossível passo à frente, o livro expande as premissas do realismo, obrigando-as a revelar seu avesso. Como os foguetes pirotécnicos que só ao explodir revelam sua grandeza.

Um erro emocional é o relato de um jantar (uma pizza com vinho) a dois. A expressão que lhe serve de título surge logo na primeira frase, dita por Paulo Donetti, um escritor que bordeja a decadência. Ele se dirige a Beatriz, logo depois que ela lhe abre a porta de seu apartamento. É o primeiro encontro de trabalho entre a nova secretária – na verdade: primeira leitora – e o escritor. Entre os dois, se erguem os originais de um novo livro.

Seria uma estupidez reduzir o romance ao desenrolar monótono dos acontecimentos – propositalmente banais, e até previsíveis. Fé quase insensata no realismo: eles são narrados com minúcias e cuidados; mas é a aposta obstinada nos detalhes (como em um animal que morre de seu próprio veneno) que os leva a explodir. O romance de Tezza é muito mais do que o relato do encontro entre um homem – que, porque se vê a um passo da paixão, pensa no erro - e uma mulher – que, diante da eminência da paixão, como uma Scheherazade contemporânea, salva-se pela palavra. É o encontro entre duas mentes que fervem.

Diálogos dissolvem-se em pensamentos, em lembranças, em conversas e vidas passadas. O tempo se relativiza enquanto os acontecimentos, com sua fé cega nos fatos, avançam. Sob o manto grosseiro da realidade – morte do realismo –, contudo, abre-se uma grande instabilidade. Tezza desmascara, assim, sem fazer alarde e sem o recurso de insights sofisticados (embora um psicanalista compareça à cena), o mito do Eu transparente. Para escrever, pensa o próprio Paulo Donetti, não é preciso “explicar tudo”. A ficção está muito além de qualquer “espírito de tese”.

Pisando o pântano do coloquial, o leitor entende que lê um discurso incompleto; isto é, uma narrativa na qual as palavras são usadas não como recurso de expressão, mas como escudos. Quanto mais os dois personagens falam, menos entendemos o que querem. Em vez de plácida e luminosa, a realidade é obscura. Tudo o que resta é o próprio Eu, precário e tenso, única via possível para o amor. Um “amor errado” – pois não existe “amor certo”, a paixão é sempre um mal-entendido. Um amor humano, capenga, cheio de zonas sombrias, que parece nunca satisfazer.

O próprio narrador reafirma a condição escorregadia do amor, quando a desloca para a literatura, definida como uma frágil busca de direção. “É preciso que as coisas façam sentido. Para isso escrevemos”, diz. Ampara-se nas palavras porque se sente em queda livre. A escrita, porém, não passa de um resto (como uma tora de madeira lançada em alto mar), ao qual, precariamente, nos agarramos. O próprio Donetti se desmente ao afirmar, logo depois, que a literatura quer, na verdade, “tirar o sentido do mundo”, desmontar o senso de ordem que o sustenta. Parece contraditório, mas não é: só ao perseguir a ordem (só ao escrever) entendemos o quanto o mundo tende à desordem. Há quase nada que possamos fazer. Talvez a única, Paulo e Beatriz nos sugerem, seja amar.

Um erro emocional trata, em consequência, da própria literatura, que não passa de um desvio pela borda do sentido. Trata do humano, cujo limite de sucesso é o “bem errar”. Os grandes painéis realistas e as límpidas narrativas dos mestres revelam, com isso, seu aspecto monstruoso. São como botas ortopédicas, enfiadas à força na alma das coisas, na esperança de corrigi-las; tudo o que fazem, porém, é quebrá-las.

Reflete Paulo Donetti, ainda, que a literatura transforma tudo em objeto. Não percebe, talvez, que, ao colocar sua atração por Beatriz à frente de suas pretensões literárias, ele inverte essa ideia, fazendo da literatura, ela sim, um objeto quase inútil. Os originais de seu livro, se aproximam os dois amantes, servem, mais ainda, para afastá-los. Um sabor de coisa inacabada, de ausência absoluta de conclusão e sentido, resta, ao fim da leitura. Seria um erro primário, porém, julgar que esse travo representa o fracasso da narrativa. É, ao contrário, porque ela sincroniza com a penúria irremediável da paixão que o romance fica de pé e se engrandece.

Se, com O filho eterno, Tezza armou para si uma bela armadilha – o que fazer depois que se chega à borda do realismo? –, com Um erro emocional, ele defronta, com coragem, a ilusão realista. Perfura, assim, as certezas do homem comum, revirando a realidade e exibindo aquilo que ela, no fundo, é: uma sombra de algo que jamais será.

A idéia de sombra, a propósito, serve a Donetti como metáfora da própria literatura. Ela o leva a entender que, se o mundo não é nítido e mecânico, a literatura só se servirá do obscuro. Conclui Paulo Donetti que, sim, é claro, sempre amamos uma pessoa, mas casamos com outra. Nunca estamos onde devemos estar, nunca chegamos a ser o que imaginamos ser, e é desse grande descompasso, no qual o real arrebenta, que a literatura se faz. Ao enfrentar a máquina emperrada que move a existência, ao desmontá-la peça a peça, Tezza ultrapassa as certezas do realismo e nos lança na turbulência de existir. Realista ainda, ele já pode, porém, aceitar a imperfeição do real.

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