Revista Aplauso – Cultura em Revista
Seção Estante - 2 de junho de 2005

O melhor romance de 2004

Flávio Ilha

O retorno do paranaense adotivo Cristovão Tezza à literatura propriamente dita, depois de um jejum de seis anos sem escrever ficção, não podia ser melhor. O Fotógrafo (Rocco, 227 págs., R$ 27), lançado no final de 2004, foi eleito esta semana como o melhor romance do ano pela Academia Brasileira de Letras. Prêmio justo. Tezza, de inestimáveis serviços prestados à literatura, prova com seu romance que uma trama comum – e, em alguns momentos, até mesmo novelesca – pode render grandes momentos literários. Traições, intrigas, suspense e, claro, romance, fazem a graça da história, que narra um único dia na vida de cinco personagens distintos ligados pelo fotógrafo do título.

Tezza trabalha – e bem – com essa mistura de pontos de vista em relação ao mesmo objeto e, em alguns momentos, com o entrecruzamento de informações e percepções que vão dar consistência aos personagens. O jogo armado pelo autor opõe tanto a fragmentação da realidade (afinal, cada personagem narra a história como a vê) como a apreensão, pelo outro, das situações armadas e imaginadas por cada interlocutor. Como pano de fundo a problematizar as ações, as eleições presidenciais de 2002. O resultado é um painel preciso das aspirações mais comuns do cotidiano, como se importar com a relação verdade/mentira ou, melhor ainda, sonhar em receber a atenção da própria mulher.

O fotógrafo é o eixo do livro, sobre o qual gravitam os outros quatro protagonistas: um homem que o contratou apenas para fotografar secretamente uma mulher, em troca de US$ 200 por filme (detalhe: sem revelação); Íris, a mulher que fascina o fotógrafo, a ponto de fazê-lo romper o trato e alterar seu destino; a mulher do fotógrafo, Lídia, que se apaixona por um professor de literatura, Duarte; e Mara, que fecha o círculo como a psicanalista casada com Duarte e que ouve Íris, a garota do início, que se prostitui apenas para não depender da autoridade do pai. A graça do romance é justamente a materialização desse conjunto disperso de angústias e anseios, em vozes tão múltiplas quanto dissonantes.

Os melhores momentos surgem das reflexões do fotógrafo, que desobedece às ordens do contratante do serviço e busca uma explicação para a tarefa que lhe foi confiada, e do professor de literatura, que é uma espécie de organizador do discurso intrínseco do romance, que se foca na representação da consciência.

Ou seja, o desafio – muito bem enfrentado por Tezza – é transformar em linguagem justamente essa consciência que se expressa aos pedaços, desordenada, insensata, destituída de significação se for tomada individualmente. Por isso o jogo proposto no livro resulta fascinante: como um fotógrafo que capta imagens dispersas de um mundo real, mas fugidio, e procura dar um sentido a elas, o leitor entra na trama com a missão de revelar essa realidade fragmentária. É um desafio que se cumpre com prazer.

O que se descortina, é claro, não constitui nenhuma novidade (casamentos fracassados, insatisfação profissional, inveja etc) mas, mesmo assim, a melancolia dos personagens e seus destinos frustrados não empalidecem o jogo armado por Tezza, que se concretiza na estrutura montada com rigor e cuidado formal. O estilo, por exemplo, é proporcional ao frenético ritmo dos devaneios individuais; as frases, certeiras, não deixam escapar uma essência, por mais difícil percepção que ela tenha; a tensão dramática está presente em toda parte, concedendo ao romance uma matéria-prima um tanto quanto esquecida hoje pela predominância de um impressionismo fútil.

O romance de Tezza não abre mão das sensações e da reflexão, a ponto de confundir deliberadamente as vozes de personagens e narrador. Mas faz isso calcado em sentimentos concretos, expressos por exemplo na definição exata do protagonista para a situação do seu casamento: “dois estranhos com uma filha no meio”. Construído sobre esse tipo de alicerce, O Fotógrafo torna-se impecável.


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