Revista Fotosite
Ano II - out/nov 2005

Fotografia para ler

Érica Rodrigues

Não é de hoje que o universo da fotografia inspira a literatura. Só para ficar em dois exemplos internacionais, citemos Tereza, a garçonete que vira fotógrafa no clássico A insustentável leveza do ser (Companhia das Letras, 352 págs. R$ 45,50), do tcheco Milan Kundera, e Joaquín Buitrago, retratista de prostitutas e loucos em Ninguém me verá chorar (Editora Francis, 264 págs., R$ 34,50), da premiada mexicana Cristina rivera Garza.

No Brasil, claro, não é diferente. O escritor catarinense radicado em Curitiba, Cristovão Tezza, 52, faturou recentemente o prêmio de melhor romance do ano da Academia Brasileira de Letras e o terceiro lugar na categoria "romance" do Prêmio Jabuti com a obra O fotógrafo (Rocco, 223 págs., R$ 27). No melhor estilo Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade (que aliás descreveu a figura do fotógrafo em vários poemas), o livro de Tezza narra a história de um fotojornalista - cujo nome não é revelado - que recebe a incumbência de seguir e tirar fotos de uma mulher chamada Íris.

Mas, em vez de manter a devida distância, ele se interessa pela moça e acaba nutrindo uma paixão por ela, que faz análise coma psicanalista Mara, mulher do professor de lídia, que émulher do fotógrafo e se apaixona pelo professor, formando um círculo restrito de acontecimentos que se desenrolam no período de um único dia.

O escritor Cristovão Tezza é fotógrafo amador e usou a fotografia como gancho para mostrar a humanidade do personagem central. Há duas fotos fundamentais no enredo e o ato realístico e, ao mesmo tempo, simbólico de revelar uma imagem está no centro do livro. "O personagem fotógrafo foi a primeira idéia do romance. O livro veio depois dele. Gosto de fotografia e sempre tive uma boa relação com as artes visuais. A fotografia educa o olhar e, de certa forma, alimenta um certo lado mais intuitivo de compreender o mundo", explica o autor.

Trecho

"Talvez tudo não passe mesmo de química, como a que vai revelar nessas trevas a face, não do abismo, mas de Íris. Lembrou dela, frágil, no recorte da luz da cozinha. Depois, os olhos em direção aos olhos dele através da lente 100 milímetros, trazendo-a ainda mais para perto de seus olhos, como se aquela ilusão óptica lhe trouxesse também o respirar de Íris, aquele delicado bicho do mato transbordante de tensão e de suavidade, a discretíssima película sobre a água, protegendo-a de vazar, indecisa ainda entre a paz e a guerra, alguém que talvez deseja se domesticar mas não sabe ainda se isso será um bom negócio, e por isso toda a pele se eriça mesmo quando os olhos se entregam aos olhos da fotografia." (p. 64)


voltar